POR QUE VOLTAMOS AO LIXO?

Publicado: 20/03/2012 por Rubem Cruz em Amor
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“No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo” I Jo 4:18a

É claro que o título deste texto é uma provocação, que será melhor explicada um pouco mais adiante. Quero tratar de um assunto um pouco espinhoso, que embora desconcertante, exige atenção  e carinho para não nos deixar enganar naquilo que é o primordial de nossa fé, ou seja, o amor que nos é colocado no coração através da graça de Cristo Jesus, após uma resposta de fé e arrependimento a um amor primeiro, que é o amor de Deus agindo na história para nos alcançar.

Gostaria de me focar em três elementos principais que compõem o versículo citado acima: a perfeição, o amor e o medo.

Primeiramente é necessário estabelecermos alguns parâmetros para que conheçamos o amor enquanto conceito fundamental da vida cristã. “O que é o amor?” é uma pergunta plenamente digna de ser concebida no âmbito da fé em um Deus que se intitula Amor.

Entendo que o amor, ao contrário do senso comum, não é um sentimento no sentido de que não é nem um ato nem um efeito do sentir. O amor não está fundamentado no campo das emoções, não sendo portanto uma sensação, muito menos uma sensibilidade que atua na psique humana. São sentimentos: a tristeza, alegria, ódio, rancor, compaixão, enfim. O amor, não se encaixa dentro do mesmo grupo que todos os sentimentos emocionais humanos se encaixam.

Creio que embora conscientes, os sentimentos estão aquém dos processos puramente racionais. Por  exemplo, uma pessoa querida morre, nós ficamos tristes sem que possamos escolher racionalmente nutrirmos ou não este sentimento. Por outro lado, o amor não é algo que acontece sem que tenhamos a plena consciência racional do amor no qual nos encontramos.

Amor é ao mesmo tempo racional e suprarracional, pois se ele é uma escolha consciente e está no âmbito da razão, ele ultrapassa a racionalidade e jamais poderá ser plenamente compreendido, já que a plenitude do amor transcende as nossas capacidades de entendimento e cognição.

O amor não é capaz de se limitar a um conceito humano. Ninguém tem plena condição de dizer o que é o amor. O ente amor é impossível de ser conhecido por inteiro. Só nos resta estabelecer como ele acontece na existência humana.

Se o amor não é um sentimento, e é impossível de ser compreendido pela razão, como ele se dá na humanidade?

Amor, em sua esfera de atuação no mundo, na vida do ser humano é antes de mais nada uma escolha que fazemos.

O amor acontece na vida mediante a escolha que eu faço em amar. Ninguém nunca é pego de surpresa por estar amando nem ama sem ter vontade de amar. Neste sentido, o amor em movimento é sempre uma opção feita por aquele que ama.

Amar ou não são sempre opções dadas ao ser humano e que, por serem opções, envolve responsabilidade plena. Ou seja, somos plenamente responsáveis tanto pelo amor que nutrimos, quanto pela escolha que fazemos em não amar.

Por isso Jesus nos ordena amar os inimigos. O mandamento do amor ao próximo, sendo este próximo tanto o que está perto porque representa alguém querido, quanto o que está perto porque representa o mal a nós causado, só é possível de ser cumprido, enquanto mandamento, porque temos o poder de escolher fazê-lo ou não.

Amar é uma escolha, em todos os níveis. Amar o inimigo, os pais, o cônjuge, o amigo, o pobre e necessitado, o pecador, o irmão de fé. Não importa o tipo de relacionamento em que estamos inseridos nem em que dimensão de amor nos envolvemos, o amar é sempre algo que se coloca diante de nós nos exigindo um posicionamento consciente, racional e verdadeiro em relação a como devemos nos engajar no amor.

O amor como resposta e escolha é sempre racional. Porém, a natureza do amor é também suprarracional, como foi dito, e nos confronta em nossa própria natureza humana.

Amor é a fuga, sempre consciente, do conforto para o “não-lugar” do ter o outro como um dos fundamentos de nossa própria vida. Amor é entrega, subtração do nosso eu para que no espaço que se abre, o amado sinta-se em casa dentro de nós. Amor é construção permanente do inacabado movimento de doar-se sem exigir nada em troca.

Amar impossibilita o ego de ter primazia sobre qualquer coisa que seja. “Viver é amar”, me disse certa vez uma pessoa. Mas amar é morrer, eu complementaria. Se amar não implicasse em um pouco de morte, o amor seria uma consequência natural de um coração apaixonado, porém amar não deriva de coisa alguma além da própria vontade de amar, já que para ser amor é preciso que não seja sentimento.

Explicando melhor, amar é morrer porque implica na morte do eu para que a vida do amado faça sentido na vida do amante. O amante não é apenas um solidário empático, ele é um doador disposto à perdas totais em prol do amado. Amante e amado se encontram na história e vivem a partir da experiência de amar e ser amado.

Em relação a segunda expressão que parece qualificar o amor, a perfeição, é importante salientar que quando contemplamos o amor enquanto movimento do amante em direção ao amado não é possível contemplar este amor se ele não for plenamente perfeito.

Neste sentido a existência do amor é melindrosa e qualquer imperfeição no movimento de amar o desqualifica como amor e o transforma em algum sentimento.

Quem ama e espera algo em troca do amor, não ama. Quem ama e sente ciúmes, não ama. Quem ama com expectativas, não ama. Quem ama e quer fazer-se conhecido enquanto amante, não ama. Quem ama e não demonstra de forma racional, não ama. Quem ama sem se preocupar em movimentar-se em função do amor, não ama.

Se o amor não for perfeito, não é amor. Isto pode acabar parecendo que pretendo fazer do amor algo utópico e inalcançável, o que nos livraria da obrigação de amar e de nos movimentarmos na vida em função do amor que deveria transbordar de nós e atingir os nossos próximos.

Porém, dizer que a perfeição é o único parâmetro verdadeiro para que o amor aconteça verdadeiramente, apenas nos coloca em uma posição única em relação ao amor que escolhemos viver: ao optamos em amar não amaremos se este amor não for perfeitamente vivenciado dentro de nós, e, consequentemente, na vida do amado.

Mas o amor perfeito não faz de nós perfeitos amantes, claro que não. A perfeição do amor nos levará sempre a experimentarmos viver perseguindo a perfeição no movimento de amar. E é aqui que o amor é lindo e divino, porque o perfeito amor é plenamente capaz de ser vivenciado por nós, mas é uma escolha que fazemos e permanentemente nos movimentará para fazer com que este perfeito amor, nos atravesse (nós, tão imperfeitos) e atinja o amado de maneira perfeita.

Primeiro o perfeito amor transborda de Deus e nos atinge.

Em seguida, escolhemos viver este amor e começamos a amar a nós mesmos para que em seguida tenhamos a capacidade existencial de amar ao próximo à nossa maneira imperfeita, mas um amor plenamente perfeito.

Uma última pergunta é necessária.

Por que o amor lança fora o medo?

Para mim é claro, quando estamos conscientes tanto da natureza do amor, quanto da natureza do medo.

Embora o medo tenha uma conotação quase que desgraçada em nossa sociedade, ele é naturalmente um sentimento que reflete em acomodação e segurança na vida do medroso.

Se não tivéssemos medo de coisa alguma andaríamos nos parepeitos dos prédios sem a real noção do perigo que corremos em estarmos enfrentando tal empreitada. O medo, neste sentido nos protege dos perigos da vida e nos impede de agir de maneira à colocar a nossa vida conscientemente em perigo. O medo é protetor e nos salvaguarda de atitudes que nos levem ao absurdo do risco.

Só que o medo não apenas no salvaguarda do perigo de perdermos a vida ou a integridade física. O medo também nos protege de colocarmos as nossas emoções em jogo para que não venhamos a sofrer por causa de atitudes irresponsáveis em relação ao nosso coração.

O medo nos freia e nos impede de correr riscos em todos os sentidos.

Então, o medo é algo bom?

No sentido de nos proteger, sim, ele é benéfico e precisa ser acolhido dentro de nós com maturidade e consciência para que não percamos a nossa vida, seja em que âmbito for.

Mas o amor lança fora o medo.

Sim, porque a escolha consciente em amar é também abrir mão do medo que nos protege. Porque o medo da entrega total de nosso coração ao amor-movimento nos leva ao impedimento de viver este amor de forma plena.

Quando eu entendo o amor como uma entrega total eu estou correndo todos os riscos que envolvem o ato de amar. Quando eu amo por inteiro, estou dizendo ao amado que ele tem um lugar cativo dentro de minha própria vida, e isso implica em um grande perigo. Mas o amor prefere sempre correr perigos do que perder o amado.

Ao darmos ouvido para o medo, estamos dizendo não ao amor. Amar é necessariamente entregar-se para que possamos viver o amor de forma plena, correndo todos os riscos em prol de ter o amor e o amado como fundamentos de nossa vida. Amar é um salto de fé no escuro. Sempre será assim e quando amar não implicar em riscos de vida e de morte não será amor, mas qualquer outro sentimento.

O amor é belo e transcendental porque ele nos leva a tomarmos atitudes que naturalmente jamais tomaríamos e que normalmente até nos afastaríamos delas.

Triste é quando optamos em amar e logo em seguida nos deixamos levar pelo medo dos riscos inerentes ao amor e retornamos ao lixo, que é o lugar da existência que o amor empurra o medo de amar, e colocamos o medo como parâmetro de nosso modo de viver o amor.

O medo não me impede de amar. Me impede de viver o amor. Assim, ele me acomoda em um amor falso, um pseudo-amor que eu vivencio de maneira vã, por assim dizer, e que me leva a uma vida de total liberdade para amar quando eu me sinto confortável para isso, e para não amar quando me defronto com os riscos deste amor.

O medo transforma o amor em um sentimento de foro íntimo, que me desobriga da tomada de decisões, fazendo da opção pelo amor algo inócuo e sem a capacidade de ser vivenciado, tanto por aquele que ama quanto por aquele que escolhemos amar.

Quando o perfeito amor joga no lixo o medo, ele está pretendendo fazer de nós pessoas que se entregam pelo amor (e também pelo amado, pois não existe amor sem o amado, cabe salientar) até a morte.

Por que voltamos ao lixo?

Porque somos incapazes de darmos o salto de fé, que nos fará amar sem limites. Amar sem limites implica ausência de medo.

Você quer viver o amor? Amar o ser amado de maneira absurda? Então, bem vindo aos parapeitos dos andares mais altos da vida!

Deus nos abençoe.

Para a sua reflexão:

Amor não demanda provas. Desculpe.

Carlos Magalhães

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