TRESDEZESSEIS (OU, COMO DEUS NOS ENSINA A AMAR E SER AMADO)

Publicado: 03/04/2012 por Rubem Cruz em Amor
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“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não perece, mas tenha a vida eterna.” João 3:16 

 

Uma pequena introdução.

Lutero disse, ou alguém me disse que ele disse, que João 3:16 é o coração da Bíblia. Não sei. Eu sei que nós, evangélicos, usamos esta passagem para dizer que Jesus salva as pessoas dando a vida eterna a quem nele vier a crer.

A Bíblia é cheia de frases fantásticas que dizem coisas fantásticas.

Falar sobre a vida eterna, Deus, Jesus, encarnação, doação, morte e salvação com apenas uma frase é algo fantástico.

Cá entre nós, tudo isso só é possível, porque nesta frase há a palavra mais importante de todas: amor. E eu creio que realmente nós podemos falar sobre salvação para as pessoas com João 3:16. Mas eu não quero falar de salvação agora. Porque, embora salvação seja algo muito importante e legal, eu prefiro entender que esta fantástica frase fala muito mais coisas do que a nossa fé pode alcançar. E a nossa fé alcança coisas bastante inalcançáveis.

Por hora, prefiro olhar para o texto e perguntar para Deus uma coisa bem simples. Pois para mim, é disso, prioritariamente que o texto fala:

“Caro Deus, o que é amar?”

Você pode ler 3:16 umas dez mil vezes. Mas apenas quando você realmente coloca a palavra “amou” na frente da palavra “crer” é que coisas novas aparecerão. Deus não está tentando nos dar uma aula sobre Teologia Sistemática ao nos ensinar sobre como as coisas acontecem na burocracia divina para que pessoas sejam aceitas no céu. Não, não é isso.

Estamos falando de amor aqui, entende? Amor é algo que preocupa Deus, não porque ele precisa fazer-se entender, mas quando entendemos o que é amor entenderemos o que é a própria vida. Amor e vida são duas questões conectadas aqui.

“Porque Deus amou…

A primeira coisa que o texto fala com a clareza que poucas vezes encontramos em textos religiosos é que “Deus amou”.

Então, o amor não é algo que está ao alcance de nossas realizações pessoais. O amor é algo que nós construímos a fim de que ele se revele em alguma ação. Amor é um substantivo que só existe quando se torna um verbo. Amar para Deus é o movimento primordial que revela a sua vontade, o seu caráter, o seu coração.

Amor é a escolha primeira que conduz todo o resto de nossas outras escolhas. É uma força tão poderosa que subjuga as outras forças de nossa vida à sua própria vontade. Por exemplo, eu amo a Mariazinha e, porque eu a amo, todos os milhões e milhões de outros movimentos que eu fizer na minha existência serão submetidos aos crivos deste amor.

Eu amo a Mariazinha. Então não a levarei ao McDonald’s se na realidade ela ama comer salada de rúcula com suco de cenoura nas tardes de sábado. Big Mac’s em segundo plano para mim que amo uma fanática em saladas.

Então você pode pensar: “Isso é paixão, amigo. Um dia isso passa e você estará chafurdando sanduiches hipercalóricos por aí enquanto sua garota te olha de lado na praça de alimentação do shopping”.

Você está certíssimo, caro leitor. Quando a paixão passa, a salada perde o lugar para o hambúrguer. Pois, apaixonado eu como salada pra Mariazinha ficar feliz. Mas quando eu amo, é a Mariazinha que come salada para que nós fiquemos felizes.

Amor não é um sentimento. Amor é uma escolha racional que demanda que o amante olhe para a sua própria vida e passe a vivê-la em função deste amor. Por isso ele é algo a ser construído ao longo de nossas histórias. Quando amamos de verdade nós moldamos nossa vida em resposta ao amor que optamos em construir.

…o mundo de tal maneira…

Por isso que, em minha opinião, amante, amado, amor e amar não são conceitos que estão separados para que possamos analisá-los com nossas lupas. Tudo se mistura. Quando eu digo que “Deus amou o mundo” estou na verdade entrelaçando Deus ao mundo, o mundo a Deus em razão do amor que ele se predispôs a construir por nós.

Este não é um dos meus textos pedantes com palavras difíceis. Então facilitarei para todo mundo: o amor embola todas as coisas.

A Mariazinha está embolada à minha vida. Deus está embolado com o mundo todo. Agora, para falarmos sobre Deus temos que falar que ele ama o mundo. Isso faz parte dele. Não é algo que ele se livra. Da mesma forma quando você ama alguém, sua história se enlaça à vida deste alguém. Por isso que você deve pensar MUITO antes de dizer para alguém “eu te amo”. Porque, na maioria das vezes, você está apenas contando uma mentirinha agradável que todo mundo gosta de ouvir. Desculpe.

Vou tentar lhe dar uma dica: para você provar para si mesmo se o que chacoalha o seu coração é amor ou se o que te dá aquele friozinho na barriga é um sentimento qualquer (seja ele nobre ou não), basta você olhar para o alvo do amor. Se ele é algo ideal, lindo, cheiroso, as flores desabrocham quando ele passa, tudo que ele fala é lindo e você fica pensando como alguém pode falar coisas tão maravilhosas para um simples mortal como você, lamento, mas isso NÃO é amor.

O amor enxerga muito bem, obrigado. Ele vê as rugas, os defeitos, os atos falhos, os desvios de caráter, ele percebe bem que o olho direito é menorzinho que o esquerdo, e alguém vem e lhe pergunta: “Cara, como você consegue conviver com isso?” Você saberá que a resposta é “amor”, pois ele não é tolo nem dodói. Amor não idealiza nem coloca o amado em altares. Você ama e isso basta.

Por isso que é uma idiotice dizer que Deus é apaixonado por nós. Claro que não! Nós somos uns toscos. Dúvidas a respeito disso, eu lhe convido a ler o jornal de amanhã, qualquer um. Você verá que ser gente não é lá uma coisa muito legal.

A humanidade fez coisas maravilhosas. Da literatura russa à medicina contemporânea. Mas, o mesmo ser humano que faz campanha contra minas terrestres é o ser humano que bombardeou Hiroxima, Nagasaki e Desdren: três cidades repletas de crianças, mulheres e velhinhos.

E Deus ama todo mundo. Todas as pessoas. Das cretinas até a Madre Tereza de Calcutá, que embora seja um referencial de piedade deveria ter os seus monstros interiores.

O amor não se desconecta da realidade.

…que deu o seu Filho unigênito…

Mas você ama, e daí? E daí que sozinho o amor não significa muita coisa. Grandes porcarias você viver por aí como se estivesse em um permanente comercial de perfume. Amar é muito mais do que dizer “eu te amo”. O amor se movimenta para além das declarações, ele está muito mais preocupado com as ações.

Amar não é nada se você ama e pronto. Eu amo, por isso, coisas acontecem. O amor faz as águas se movimentarem ao seu redor e ao redor de quem você ama.

Assim, Deus amou tanto o mundo que teve que fazer alguma coisa em relação a isso. Ele acaba dando o próprio Filho.

A partir daí, você pode pensar que eu vou falar que Deus nos amou, então ele contemplou nossa necessidade e quis nos ajudar dando o Filho dele para morrer por nós e nos dar a vida eterna.

Ok, você está certo em seu raciocínio. Realmente a Bíblia diz isso, também…

Este raciocínio está certo, mas está também incompleto.

Antes de contemplar as necessidades do amado, o amante olha para si. Mas não de uma maneira egoísta e narcisista, como quem se contempla para o próprio deleite. O amor faz-nos contemplarmos para que de nós saia o melhor.

Amar é despedir-se do que se tem de mais precioso.

Neste sentido, o Filho, encarnação do próprio Deus, que a teologia vai chamar de “Deus de Deus” é antes de tudo Deus dando a si mesmo. Amar é necessariamente uma auto-entrega, um eterno abrir mão de nossa própria vida em prol da vida de outro, no caso, aquele que amamos.

Podemos dar a nossa vida para muitas coisas. Pessoas, causas, ideologias, crenças. E mesmo dando a nossa vida, podemos não amar. Podemos dar a vida por egoísmo, vaidade, masoquismo, estupidez. Dar a vida, em si mesmo, não é amar. Porém, não existe amor sem uma doação integral de nosso ser. Amar é muito mais do que uma mera entrega, mesmo que seja a entrega da própria vida.

Em amor, Deus abre as mãos, deixando escorrer por entre os seus dedos o que lhe era mais valioso. A vinda e vida de Jesus de Nazaré é a prova cabal que Deus nos dá para que fique claro como o cristal mais polido que ele não ama pela metade, mas por inteiro.

Quando amamos realmente, o amor exige tudo de nós. Estamos diante de um entregar-se contínuo que não conhece limites. O amor, de fato, é aquilo que faz-nos entregar ao amado todos os nossos “filhos unigênitos”.

Eu amo, então eu lhe pertenço. O amado se apropria do amante e nunca o contrário. Talvez aqui se encontre o maior risco do amor. Quem é que em sã consciência se entregaria desta maneira? Responda aquele que já amou alguém verdadeiramente.

Penso que o amor é racional pelo fato de não idiotizar o ser humano. Não é porque eu amo que colocarei a minha vida em xeque. Quando me entrego por amor eu penso sobre isso, contemplo com a minha consciência quem eu escolhi amar. Ninguém ama a garota que foi capa da última Playboy, claro que não. Isso é estúpido e o amor é uma força inteligente. O que não significa que não sofremos por amor.

“Atire a primeira pedra aquele que não sofreu por amor.” Pessoalmente não tenho pedras para atirar. Amor que é amor acontece na vida de uma forma consciente, portanto assume os riscos do amar, e amar muitas vezes é sofrer.

Dentre as coisas mais horríveis que podem acontecer a nós, seres humanos, é ter o nosso amor não correspondido. É o dispor-se a entrega e receber um NÃO como resposta. Entretanto, situações assim fazem parte da vida e não transformam o amor em uma aventura louca. A possibilidade da negação do amado apenas faz do amor que eu sinto algo verdadeiramente real.

Porque o amor é real e verdadeiro é que ele se dignifica a viver o risco da rejeição.

Quando amamos com qualquer condição, com qualquer cautela, com qualquer “porém”, por mais insignificante que seja, isso não pode ser amor.

Deus deu o Filho. Apostou todas as fichas no amor que nutria desde a eternidade por nós. O amor que Deus nos dignifica em sermos recebedores é completamente desprovido de interesses ou condições. Ele nos ama, e isso é o bastante.

Deve ser assim conosco. Devemos amar e ponto final. Como disse Drummond, “eu te amo porque te amo” até porque se algum dia descobrirmos os verdadeiros porquês do nosso amor ele pode se esfacelar quando estes porquês nos decepcionarem.

…para todo aquele que nele crer…

A crença em Jesus não é condição para o amor de Deus. Ele nos ama e não importa se nós o amemos ou não. Podem até haver pessoas que crêem de uma forma diferente. Como se Deus amasse os cristãos porque os cristãos (pelo menos na teoria, né?) amam a Deus, já que crêem no Filho unigênito.

Mas não é isso. Não é nada disso!

O que Deus sonha é que nós ao sentirmos dentro de nós o seu amor para conosco, tenhamos para ele uma resposta verdadeiramente amorosa. Ele espera que passemos a crer no Filho que nos foi presenteado. Ele espera que nós digamos para ele: “Deus, muito obrigado por seu amor maravilhoso. Obrigado por você ter dado o seu melhor, aquilo que você tinha de mais bonito e precioso. Eu também te amo Deus”.

Ou você achou que crer em Jesus era acreditar em uma série de doutrinas, teologias e outras coisinhas que os homens sistematizaram? Faça-me um favor, né amigão? Não rebaixe o amor de Deus a esse ponto.

Nós amamos e queremos ser amados. E quando somos amados, ou seja, quando o nosso amor é recebido no coração de quem amamos com todas as forças de nossa existência nosso pequeno mundo se rasga de cima a baixo, abrimos nossos corações, nossa alma e acolhemos visceralmente nosso amado.

Não existe nada mais divino na face desta terra do que o mútuo amor.

“E quando você receber o meu amor…” é como nós diríamos para quem nós amamos. Quando você receber dentro do seu próprio interior todo o amor que eu sinto por você, quando você escolher não apenas ser amado, mas também me amar como eu te amo, quando em seu coração existir a possibilidade de viver comigo o amor que agora eu construo sozinho, mas que eu lhe ofereço para construirmos juntos…

Quando isso acontecer…

Percebe que eu não estou falando de uma promessa do amante para comprar o coração do amado? Amor não permite mercantilizar-se jamais! Colocou à venda, esquece que não é amor. O amor não se alimenta de promessas nem tenta enredar o amado usando o seu amor como moeda.

Por outro lado, o amor não consegue calar-se diante da esperança de também encontrar amor na vida de quem ama. E como não se cala na esperança, ele faz com que o amado saiba que o mundo jamais será o bastante para acolher o amor que é compartilhado.

Quem ama promete. Quem ama promete porque tem consciência daquilo que acontece dentro de si quando a palavra é amor. Quem ama promete porque sabe perfeitamente que amor não oferece uma utopia, ao contrário, oferece uma vida real e plena que apenas o amor é capaz de dar.

…não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Por fim, Deus acaba conectando dois conceitos infinitamente profundos que não me permitem tentar entender: amor e vida.

O amor que Deus construiu na eternidade por nós, que o levou a dar-se dando o Filho amado, que ele espera que seja respondido amorosamente, este amor desemboca em uma espiral de vida sem começo nem fim.

Isto é eternidade, certo? É algo que não começa nem termina, simplesmente existe independentemente da história, do tempo, dos acontecimentos.

O amor é aquilo que nos transporta para uma realidade de eternidade. Ele nos tira de nossos parâmetros de vida nos dando perspectivas inimagináveis.

Quando Deus nos ama e nós, em resposta a isso, o amamos, não existe outra consequência, senão a eternidade de nossa vida. A nossa existência se torna viva e eterna.

Este é o grande poder do amor. O poder de dar vida à nossa vida. Em paralelo ao amor de Deus que nos catapulta para a eternidade ao seu lado (estar ao lado de Deus é a mesma coisa do que viver eternamente), há também o amor que vivemos pelo outro.

Se o amor que Deus tem por nós, quando correspondido, nos leva a eternidade viva, o que o amor que optamos em construir por alguém, e este alguém opta em construí-lo ao nosso lado, trás como resultado?

Creio com todas as minhas forças que quando amamos ao mesmo tempo em que somos amados, como um laço que é dado em nossa vida nos conectado a outra vida, isto trás vivacidade com ares eternais ao viver em conjunto que apenas o amor é capaz de produzir.

Explico melhor – quando o amor acontece entre duas pessoas, acontece como se uma vida totalmente nova fosse criada. Por isso que a Bíblia diz que o homem deve deixar pai e mãe para unir-se a uma mulher e ser com ela uma só carne.

Homem e mulher, impulsionados pelo amor, deixam tudo. Tudo fica para trás porque nada possui mais valor ou mesmo merece mais crédito do que o próprio amor. E eles se tornam uma só carne. Uma vida completamente nova é formada a partir do amor que faz com que os dois amantes não aguentem sequer existir a não ser que seja um ao lado do outro.

Todo amor gera vida.

E como Paulo disse para a igreja de Corinto, “o amor jamais acaba”. Portanto, há no amor um prenúncio de eternidade, de imortalidade, de vencer as barreiras impostas pela morte.

É por isso que quando um casamento acaba é como se uma monstruosidade acontecesse diante de nossos olhos. Quando duas pessoas que escolheram se amar e a partir desta escolha constroem o amor, dia após dia e depois de um tempo escolhem acabar com esta construção, é como se estivessem assassinando o amor.

“O amor acabou” deveria ser uma frase que ao entrar em nossos ouvidos, pensaríamos na hora: ABSURDO!

 

Uma pequena conclusão.

Bem, tudo o que eu escrevi faz muito sentido para mim. Se não fosse assim, acho que não me daria ao trabalho de ficar escrevendo.

Por outro lado, reconheço que todo este lance de amor e amar é muito complicado. Você, que passou uma parte do seu tempo lendo este texto pode estar querendo me responder: “Acorda, cara! Isso tudo não passe de ilusão, porque na vida real as coisas não são tão bonitinhas e coloridas como você fica pintando para os outros e para você mesmo.”

Fique tranqüilo, quero deixar claro que concordo com você. O amor é realmente difícil de engolir, principalmente no mundo em que vivemos. Não sou menino e sei que as coisas são bem mais difíceis quando saem do papel.

Só há um pequeníssimo porém. O amor não faz parte da vida “real”. Com aspas porque eu não quero que você sequer pense que eu acho o amor um conceito, embora divino e tal, impossível de ser experimentado. Com aspas porque a vida que muitas vezes nós vivemos pode ser bem coerente com os jornais, as novelas, as filosofias, os paradigmas da modernidade, mas ela ainda assim nunca me convencerá que é a única maneira certa de se viver.

E para mim isso já é o bastante para que eu assine em baixo de tudo o que escrevi.

Carlos Magalhães

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comentários
  1. Quanto mais alcançarmos nossas mãos ao próximo, mais DEUS se aproximará de nossas mãos, com o seu AMOR DIVINO.

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