CARTA ABERTA AOS VOCACIONADOS

Publicado: 04/06/2012 por Rubem Cruz em Chamado
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Caro vocacionado, você… você mesmo que um dia foi chamado por Deus. Você que desfez a cama, fez as malas, arrumou o quarto, deu um beijo nos pais, saiu pela porta, disse adeus ao portão, um pé, outro pé e se foi.

Eu deveria, em minha breve experiência, dizer: fuja! Enquanto há tempo, se mande pelas rodovias marginais, pegue o caminho para o mundo, atravesse as florestas, se abrigue em cavernas, fuja com a velocidade dos desesperados.

Ou talvez, quem sabe, fosse melhor eu dizer: fique! Entre no armário, atrás do fogão, na despensa. Troque de quarto, desligue na cara, não receba folhetos, não aceite orações, se esconda.

Pois foi assim que eu fiz no dia em que fui chamado. Eu fugi e fiquei. Olhei no espelho e disse para mim mesmo: “Escolho o fim do mundo, o fim da minha própria vida. Serei o meu Deus por apenas cinco minutos e entrarei no barco de minha liberdade.”

E se o céu se fechar, o mar agitar, o chão estremecer? O filho doente, a mãe doente, minha carne doente? Não importa. “Não vou, porque não quero. Não quero porque não aceito.” Fui e fiquei dentro de mim.

Você que foi chamado por Deus. Eu me preocupo com você. Sei bem o que é estar no seu lugar. E também sei o que é estar fora do meu lugar. O Senhor mandou-me fazer coisas que me afrontavam, em um lugar que não me agradava, falar para uma gente que eu não gostava, acerca de uma mensagem que eu não concordava.

E todo mundo dizia: “Bom dia, pastor”, “Boa tarde, pastor”, “Como vai, profeta?” Eu até era educado, mas queria mesmo era dizer: “Danem-se!” Mas não podia, meu grito entalado, minha barriga fria, meu nome sendo chamado.

Então percebi que antes de ser chamado para lá, eu fui chamado para aqui. E gostaria que você me visse colocando a mão no peito, porque o meu “aqui” é bem aqui dentro de mim. É duro admitir, mas a minha vocação é a minha vida. E como eu fugi! Fugi de mim mesmo durante muito tempo, colocando a vida dos outros em segundo plano.

No fundo é assim que Deus faz, Ele nos mostra que o verdadeiro encontro com o sentido da vida é encontrar a nossa vida nas demandas do outro. E admito, caro vocacionado, que todos nós temos os nossos próprios outros. Talvez se eu tivesse fugido até o fim, chegado ao fim do mundo, lá eu teria encontrado pessoas. Mas não seriam as minhas pessoas, e certamente eu não seria a pessoa delas.

Descobri, em lágrimas, que a minha vocação (e a sua também), tem a ver com os homens e mulheres que sofrem quando dizemos não para o chamado. As pessoas que Deus nos dá para amarmos. Enquanto amei odiá-las eu acabava odiando a mim mesmo. Deus nos mistura a elas, como se o meu sangue corresse em suas veias.

Você pode me perguntar: “Mas o que te dá tanta certeza disso, profeta?” Afinal de contas eu ainda choro, meus horários não batem, chego atrasado, não sou compreendido, me chamam de louco, não tenho tempo pro lazer e alguns me interrogam: “Isso é que é vida?”

Eu preciso lhe dizer que afinal, se isso não é vida, não pretendo saber o que é vida então. O chamado acabou dando o sentido que eu preferiria que tudo não tivesse. Mas agora, além-mar, eu percebo que nada faria sentido se eu não estivesse aqui, aqui e aqui, cercado de tudo aquilo que, em um dia cinza, Deus me deu e eu não quis. Depois de tudo, percebi que não era apenas a obra de Deus que eu estava realizando, mas era o próprio Deus realizando a obra dele em mim e naqueles que ele separou para mim e me separou para eles.

Ainda assim, meu conselho é o mesmo: fuja e fique.

Fuja de si, mas fique em Deus.

Um abraço fraterno.

Do seu,

Jonas, filho de Amitai

Carlos Magalhães

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