Arquivo de janeiro, 2015

Pecado Humanizado

Publicado: 25/01/2015 por bren0azevedo em Vida Devocional

É natural pensarmos nas coisas que acreditamos a partir de um ponto de vista que nos foi passado. Na verdade, tudo que ouvimos, falamos, aprendemos e refletimos possui um ponto de partida que foi estabelecido por alguém ou por algum grupo. Acontece assim nas famílias, nas escolas, com os amigos e no ambiente religioso.

Partindo dessa ótica, o Cristianismo foi erguido pela Igreja primitiva tendo como chão o Evangelho que Jesus apresentou quando, em Terra, propagou, por meio de palavras e ações, o Reino de Deus. Um dos assuntos mais relevante na mensagem de Cristo foi a Vida Abundante. Se não me engano, já ouvi dizer que Jesus falou mais da vida do que do pecado. Não me esforço muito para acreditar nisso. Jesus tinha o costume de olhar as pessoas pelas lentes da esperança.

Quando lemos em Romanos 6. 23 que o salário do pecado é a morte, naturalmente, pensamos na morte espiritual. Sempre ouvimos dizer nas pregações que quando pecamos estamos matando nosso Espírito. Sendo assim, inconscientemente, foi se criando a lógica do “certo x errado”.  Quantas e quantas vezes nos disseram que ir a certos lugares, ouvir certas músicas, conversar com determinadas pessoas é errado? O foco desse discurso é a maximização dos “símbolos diabólicos”, tais como:  pessoas, lugares, bebida alcoólica, música secular, dentre outros, mas nunca a essência do pecado, a raiz.  O óbito espiritual, a verticalização do pecado é o centro, segundo o “certo x errado”, entretanto, nos esquecemos do motor que alimenta isso tudo: a motivação. O único fator importante de quando pecamos, tendo em vista a lógica do “certo x errado”, é que quebramos as leis “divinas” e não nos enquadramos mais no esteriótipo do rol de membros da igreja institucionalizada.

Não deixa de ser correto pensarmos que o pecado é algo errado que fazemos, pensamos ou sentimentos (ele sempre passa por essas três vias). É óbvio que Paulo falou da morte espiritual também. Inclusive, ele deixou bem claro nas suas cartas às Igrejas primárias que não devemos nos escravizar ao pecado. Ou seja, o pecado realmente é algo errado, espiritualmente falando.

De qualquer forma, existi uma dimensão do pecado que é tão importante quanto essa que já sabemos. A dimensão humana.  Pode parecer redundante isso que estou falando, até porque o pecado é gerado pela natureza do homem, afastada de Deus desde a queda. Contudo, quando falo em dimensão humana, falo da lógica do “melhor x pior” e não só do “certo x errado”. Consegue perceber a diferença? O interesse de Deus é que a gente consiga visualizar por essa perspectiva também, pois, por ela, atentamos para a destruição pecaminosa, gerada pelo homem, num processo que se veicula de dentro pra fora. Mais do que isso: um processo que danifica o homem na sua essência e não só transgride “regras e leis” que nos são passadas. Lembrando que estamos falando tanto da natureza do pecado (sua formação e características) quanto das suas consequências (salário e resultados). Me arrisco a dizer que, através do entendimento dessa dimensão, acharemos o equilíbrio para não cairmos na hipocrisia farisaica, nem na libertinagem da Igreja em Coríntios. Ambos não souberam andar pela corda bamba da Graça, se desequilibraram e caíram. Um no chão da religiosidade outro no chão da promiscuidade.

Quando penso em dimensão humana, não penso só na morte espiritual, penso também na morte da alma, dos relacionamentos, da integridade, da singeleza, da sensibilidade, da pureza humana, isto é, de tudo que nos faz viver acima da miséria. A miséria é uma realidade muito cruel. Ser mísero é muito pior do que ser pobre, por incrível que pareça, os dois se diferem. A miséria fala do ser humano, já a pobreza do ter humano. É possível ser mísero possuindo muitos bens, assim como é possível ser pobre e sequer conhecer a miséria. É possível ser mísero exercendo uma religião e boas ações da mesma forma que é possível viver avesso à prática religiosa e desconhecer a miséria. Nesse campo da miséria humana o pecado é tão prejudicial quanto no campo da espiritualidade. Não acredito que vivemos com essas duas dimensões desconectadas, tudo que fazemos, pensamos e sentimos passam por elas (humana e espiritual). Mas vale a pena analisarmos esses terrenos separadamente para que não caiamos na armadilha de seguir uma lista de métodos, vestirmos uma “capa” de santidade, ditarmos regras de conduta, mas no íntimo sermos míseros. Foi nessa hipocrisia que os fariseus e mestres da lei caíram quando fizeram da Lei o seu Deus e negligenciaram a Graça. Quiseram transmitir algo que no íntimo não eram.

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Photo-Technical Sergeant Mike Buytas, the United States Air Force.

Sinceramente, tenho muita dificuldade em crer que Deus nos convida para viver longe do pecado só para agradá-lo. O amor de Deus não reflete isso. A distância que Ele nos pede do pecado é porque ele (o pecado) nos faz miseráveis em todos os aspectos. Nossas conversas são rasas, nossas risadas dependem de incentivos, nossa fuga são as coisas, nossos relacionamentos são regados de carências insaciáveis. Assim como nosso espírito se enfraquece, nossa santidade é abalada e nossa proximidade com Deus é interrompida. Como já mencionei, tanto a nossa humanidade quanto a nossa espiritualidade crescem mutuamente e estão em contínuo diálogo. Não tem nada pior do que ser uma pessoa mísera. E o pecado nos leva para a miséria absoluta, para um estado de ser raso e vazio.

Diferentemente do que achamos, quando observamos o pecado pela lógica do “melhor x pior” não quer dizer que definiremos o melhor ou o pior para nós. O desafio é buscar nos ensinamentos de Jesus essas respostas. Neles encontraremos o tão importante equilíbrio a fim de peregrinarmos por essa Terra desfrutando da plenitude do ser. Tendo a consciência de que o pecado é o impulso de dentro pra fora que espelha um enorme dano causado no caráter de Deus e, simultaneamente, no nosso.

Que Deus nos ajude a seguir em frente com esse Entendimento nas nossas mentes, corações e, sobretudo, nas ações!

Breno Azevedo